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Giordano Cabral

fluência · 2025–

O que é fluência em inteligência artificial, e por que medir movimento em vez de posição?

Fluência é medir o movimento em vez da posição. Num campo cujo estado da arte muda a cada poucos meses, uma escala de maturidade situa a organização numa referência já desatualizada. O movimento também não se mede pelo que a pessoa declara sobre si: o ensaio controlado do METR, de 10 de julho de 2025, mediu 16 desenvolvedores experientes levando 19% mais tempo com IA em 246 tarefas dos próprios repositórios, enquanto estimavam ter ficado 20% mais rápidos. A medida é tomada no traço que o trabalho deixa. O conceito fundamenta os seis eixos do FAROL, os jogos do PsyFun e a avaliação por processo nas disciplinas de Giordano Cabral.

Bancada vista de cima: caixa de MDF com quatro botões e pedal de pé, cabo, carretel de solda, placa de ensaio, paquímetro e uma folha com uma onda desenhada; um botão vermelho.

01 · Fluência

O ensaio do METR, 2025 e 2026

Em 10 de julho de 2025 o METR publicou um ensaio controlado sobre produtividade e IA. Dezesseis desenvolvedores experientes trabalharam em 246 tarefas dos próprios repositórios, cada uma sorteada para permitir ou proibir o uso de IA. Com IA, levaram 19% mais tempo. Ao final, estimaram ter ficado 20% mais rápidos.

Em 24 de fevereiro de 2026 os mesmos autores refizeram o estudo. Entre os dez do grupo original que voltaram, a conta deu 18% mais rápido, num intervalo que vai de 38% mais rápido a 9% mais lento — e eles próprios chamam o dado novo de sinal fraco, porque parcela crescente dos convidados recusa um estudo que a obrigue a trabalhar metade do tempo sem IA.

O resultado mudou de sinal entre as duas medições, e o desenho do experimento deixou de medir o que media, porque o uso de IA entre os participantes mudou. Uma escala que atribui um degrau pressupõe que a própria escala permaneça estável.

O termo adotado por Giordano Cabral é fluência. Ele o emprega desde 2025 no FAROL, grupo que coordena no CIn/UFPE com Filipe Calegário; antes disso, sem esse nome, a mesma abordagem aparece nos jogos do PsyFun e na avaliação em sala de aula.

02 · Fluência

Por que fluência

O termo vem do aprendizado de idiomas: sem prática, o nível regride. A fluência é medida por eixo — uma organização pode ser fluente em dados e não em pessoas — e depende do ecossistema em volta.

A adoção, isoladamente, já não diferencia organizações: a pesquisa do Stack Overflow de 2025 registra 84% dos respondentes usando ou planejando usar IA no desenvolvimento, contra 76% no ano anterior, e 46% que desconfiam da exatidão do que ela devolve, contra 33% que confiam.

Os modelos de maturidade em IA herdam dos de software dos anos 1990, feitos para processo estável. A crítica do FAROL, detalhada em IA agêntica, tem três pontos: a organização classificada no topo tende a ter mais a perder na mudança seguinte; esses modelos premiam a padronização e penalizam a experimentação, enquanto em IA o descarte rápido tem valor; e posição não informa velocidade.

Seis eixos — conhecimento, ferramentas e integração, delegação e autonomia, processos, produtividade e resultados, aprendizado e cultura —, cada um com régua própria de N0 a N5, contra um banco mestre de 264 itens. A porta de entrada é o diagnóstico aberto: uma liderança responde pela organização em três a oito minutos, sem cadastro prévio, e recebe o radar na hora. O que uma empresa faz depois está em transformação de empresas com IA.

As cinco leituras do mesmo banco de 264 itens, no Mapa da Fluência Agêntica
As cinco leituras do mesmo banco de 264 itens, no Mapa da Fluência Agêntica

03 · Fluência

Medir no traço

Perguntadas se cooperariam, crianças quase sempre respondem que sim. Nos jogos do PsyFun cooperar custa recurso, a escolha é tomada em cerca de três segundos e nada na tela se chama dilema. Em dois experimentos com 162 crianças de 6 a 12 anos, publicados na Behavior Research Methods em 2021, elas cooperaram mais num jogo do que no outro, e de forma condicional — duas coisas que um questionário não separa. Cabral coordenou o grupo na UFRPE em 2013 e 2014 e, até 2018, o projeto do CNPq que o originou.

A distinção é entre o que a pessoa responde sobre si e o registro do que ela fez. As duas medidas têm erros de natureza diferente e, por isso, não se somam: a declaração erra de forma sistemática e na mesma direção, como no METR; o traço só enxerga o trabalho que passa por um sistema que grava, e registra o que foi feito, não o que foi entendido.

Em Tendências em Mídia e Interação, edição 2026.2, cada aluno peneira quinhentas ferramentas item a item dentro do sistema da disciplina, que grava o tempo em cada uma. A regra está no plano: se a máquina fabrica o produto, avalia-se o processo de pilotagem da máquina. A disciplina não usa detector de IA; o critério é evidência de processo — repositório, histórico, justificativa, teste. Na primeira entrega, catorze alunos levaram 5.776 ferramentas ao catálogo comum e registraram 659 escolhas.

No FAROL, o retrato de uso observado é eixo à parte, fora da escada de coleta, porque não se soma ao que a pessoa relata. O Meu Mapa de IA pergunta a estudantes o que já fizeram; o agregado sai no Observatório de IA do CIn, com 2.943 respostas no extrato de 14 de setembro de 2026. A pesquisa é transversal — os ciclos não acompanham as mesmas pessoas, e a curva que sobe de um para o outro não demonstra evolução causada por formação nenhuma.

04 · Fluência

Onde a régua para

A medida não avalia a qualidade do que a IA produz, nenhum instrumento envia teor de conversa a servidor algum, e nenhum resultado individual é divulgado: nos painéis abertos, célula com menos de cinco respostas é suprimida, o que no Observatório deixou 1.394.729 células fora das somas. Combinação indisponível não quer dizer zero.

Duas objeções ficam publicadas ao lado do índice. A lei de Goodhart: indicador que vira meta deixa de medir o que representava, e um índice de fluência é vulnerável por três portas — premiar volume de uso, trivial de manipular; ser lido como selo; e pontuar delegação de modo a premiar quem mais delega fora da própria competência. A segunda: uma medida anunciada funciona como compromisso público e pode ser cobrada depois, inclusive juridicamente.

A destilação de competência — delegar a geração de código cobra preço na formação de habilidade, e cobra mais de quem está começando — é uma hipótese recorrente nos textos de Cabral e ainda não foi testada. Testá-la exige acompanhar as mesmas pessoas ao longo do tempo, e os instrumentos atuais do FAROL fazem medições transversais. O Açude, jogo de recurso comum aberto em 2026, grava a decisão rodada a rodada; em 18 de setembro de 2026 a partida ainda respondia 404.

Perguntas frequentes

O que é fluência em IA?

Fluência em inteligência artificial é a velocidade com que uma pessoa ou uma organização se move no uso de IA, medida eixo a eixo, e não o nível alcançado numa escala. Como num idioma, é um estado contínuo: quem para de praticar regride. É o objeto do FAROL, grupo de dois professores do CIn/UFPE — Giordano Cabral e Filipe Calegário — que desde 2025 mede fluência em seis eixos, numa régua de N0 a N5.

Qual a diferença entre fluência e maturidade em IA?

Na definição do FAROL, maturidade mede posição e fluência mede movimento. Um modelo de maturidade põe a organização num degrau de uma escada herdada do software dos anos 1990, feita para processo estável. Quando o estado da arte muda a cada poucos meses, a referência se altera depois da medição. A fluência mede a que velocidade a organização se move, e em qual eixo.

O que quer dizer medir no traço em vez da declaração?

Medida declarada é o que a pessoa responde sobre si num questionário. Medida de traço é o registro do que ela fez: a decisão dentro de um jogo, o tempo gasto em cada item de uma peneira, a ferramenta usada numa tarefa. A declaração erra de modo sistemático — no ensaio do METR de julho de 2025, profissionais experientes levaram 19% mais tempo com IA e estimaram ter ficado 20% mais rápidos. O par aparece em três lugares do mesmo trabalho: o jogo, a telemetria da peneira e o uso observado.

O índice de fluência do FAROL mede a qualidade do que a IA produz?

Não. Os instrumentos também não enviam teor de conversa a servidor algum e não divulgam resultado individual: nos painéis abertos, qualquer célula com menos de cinco respostas é suprimida. Ao lado do índice ficam publicadas as duas objeções que o grupo não resolveu — a lei de Goodhart e o fato de que medida anunciada é promessa.

Onde uma organização pode medir a própria fluência hoje?

No diagnóstico aberto do FAROL, em farol-ia.org/diagnostico. Uma liderança responde pela organização, leva de três a oito minutos e não precisa de cadastro prévio. O resultado sai na hora, com o radar dos seis eixos e o lado da fronteira entre IA generativa e IA agêntica em que a empresa está. É gratuito, sem consultoria no meio, e o banco de perguntas que o sustenta tem 264 itens.