Inteligência artificial · 2025–
O que é IA agêntica, e como se mede a fluência de uma organização nela?
IA agêntica é a inteligência artificial que executa tarefas inteiras — usa ferramentas, encadeia passos e age sobre sistemas —, em vez de apenas conversar e devolver texto. Desde 2025, Giordano Cabral coordena com Filipe Calegário o FAROL, grupo que mede como organizações e pessoas de fato trabalham com IA agêntica (farol-ia.org). A tese do grupo é que “maturidade em IA” é um conceito quebrado e que o que se deve medir é fluência: um estado contínuo que se perde sem prática, e não uma posição alcançada. A fluência é medida em seis eixos — conhecimento, ferramentas e integração, delegação e autonomia, processos, produtividade e resultados, aprendizado e cultura —, numa régua de N0 a N5, contra um banco mestre de 264 itens em quatro famílias, 15 grandes perguntas e três profundidades (conhecer, fazer, articular).

01 · IA agêntica
O que é IA agêntica, e o que a distingue da IA generativa?
Na IA generativa, a pessoa conversa com o modelo e recebe um texto, uma imagem ou um trecho de código; a execução continua sendo dela. Na IA agêntica, ela delega a tarefa inteira: o sistema decide os passos, chama ferramentas, lê e escreve arquivos, consulta a internet e volta com o trabalho feito — ou com a explicação de por que não conseguiu.
Essa fronteira é o eixo do diagnóstico do FAROL. Conversar com a IA é uso generativo; mandar a IA executar é uso agêntico, e a distinção separa o vocabulário mínimo do vocabulário de quem já trabalha assim. É a base do primeiro dos seis eixos, e o que o diagnóstico devolve a uma organização é, antes de qualquer nota, de que lado dessa fronteira ela está.
02 · IA agêntica
Por que o FAROL mede fluência em vez de maturidade?
Porque um modelo de maturidade pressupõe um processo estável, e a IA não é estável. A maioria dos modelos de maturidade em IA herda do CMMI, desenhado nos anos 90 para software, e carrega três defeitos quando aplicado a um campo cujo estado da arte muda a cada poucos meses:
- Falsa sensação de chegada. Uma empresa em "nível 5 — otimizado" sente que chegou, e é por isso a mais vulnerável à onda seguinte.
- Penaliza quem experimenta. Frameworks tradicionais recompensam padronização; em IA, experimentar e descartar rápido vale mais, e abandonar um projeto não é, por si, fracasso.
- Ignora o movimento. Maturidade mede posição. Quem incorporou modelos de linguagem ontem pode estar mais fluente que quem tem aprendizado de máquina há cinco anos.
A alternativa é a fluência, na analogia de um idioma: contínua, porque parar é retroceder; distribuída, porque uma organização pode ser forte em dados e fraca em pessoas; e dependente do ecossistema em volta.
Que evidência sustenta a escolha de medir fluência?
Três resultados de fora do grupo:
- Adoção deixou de distinguir. A pesquisa do Stack Overflow de 2025 registra 84% de uso de IA entre desenvolvedores, com a confiança caindo de 40% para 29% em um ano e 66% relatando soluções "quase certas, mas não bem".
- A percepção engana. O ensaio controlado do METR de julho de 2025 mediu desenvolvedores experientes em projetos maduros ficando 19% mais lentos com IA, enquanto acreditavam estar 20% mais rápidos.
- A lacuna brasileira é de fluência. A presença das ferramentas é massiva; o que falta é maturidade na delegação — questão cultural e organizacional.
03 · IA agêntica
Quais são os seis eixos da fluência agêntica?
O FAROL mede eixo a eixo, porque uma média esconde exatamente o desequilíbrio que interessa.
- E1 · Conhecimento — quanto se entende de IA, do vocabulário mínimo à distinção entre conversar com a IA e mandar a IA executar. É a base dos demais.
- E2 · Ferramentas e integração — o que se usa de fato e com que profundidade, de chat solto a MCP, conectores e agentes ligados aos sistemas da empresa. Amplitude não compra profundidade.
- E3 · Delegação e autonomia — como cada pessoa trabalha com a IA, do copia-e-cola cego ao planning mode, em que se pede o plano antes da execução. Governança vive aqui, como habilitador.
- E4 · Processos — quais fluxos foram repensados pela IA, e não só acelerados. A pergunta de corte: a tarefa ficou mais rápida, ou o processo só existe assim por causa da IA?
- E5 · Produtividade e resultados — o ganho operacional (tempo, custo, qualidade) e o estratégico (raciocínio, decisão). Distingue "acelerou o indivíduo" de "mudou a vazão do time".
- E6 · Aprendizado e cultura — como a organização se mantém atualizada. É o motor: sem ele, qualquer nível alcançado regride.
A régua vai de N0 a N5 na versão 3, canônica, e ia de A a E na versão 1. A fundamentação declarada é uma síntese crítica de 928 formulações de fluência e maturidade em IA publicadas por consultorias, universidades e big techs — entre elas MIT CISR, Gartner, Deloitte, Cisco, Forrester/IBM, Microsoft, Salesforce e NIST —, recalibrada para o contexto brasileiro.

04 · IA agêntica
Como o instrumento é construído?
O instrumento tem estrutura em árvore. Como cada respondente usa uma pilha de ferramentas, e não todas, o questionário primeiro identifica a pilha e então abre perguntas dentro dela.
A coleta tem cinco degraus, organizados por custo: nível 1, uma resposta por organização, de dez a quinze minutos, gratuito; nível 2, uma resposta por pessoa, cerca de cinco minutos, gratuito; nível 3, entrevistas estruturadas, cerca de uma hora por pessoa; níveis 4 e 5, aprofundamento assistido e trabalho presencial.
Fora da medida ficam a qualidade do que a IA produz e o teor das conversas, que não sai da máquina de quem responde. O que o índice não mede está em fluência.
Que objeções o próprio grupo publica?
Duas, publicadas ao lado dele: a lei de Goodhart — um indicador que vira meta deixa de medir o que representa — e que medida anunciada é promessa, cobrável depois. As duas estão desenvolvidas em fluência.
05 · IA agêntica
Que instrumentos de fluência agêntica estão abertos ao público?
Seis estão no ar, sem cadastro prévio e sem custo:
- Índice de IA para PMEs — uma liderança responde pela organização e sai com o radar dos seis eixos e o próximo salto. De três a oito minutos, resultado imediato.
- Meu Mapa de IA — instrumento de pesquisa em forma de jogo para estudantes, cerca de catorze minutos no celular, com termo de consentimento na tela.
- Observatório de IA do CIn — o painel agregado do Meu Mapa de IA. Na leitura de 18/09/2026, com dado extraído do banco em 14/09/2026: 2.943 respostas no snapshot completo, 1.394.729 células suprimidas pela proteção k ≥ 5 e 17.396 recortes indisponíveis. Exportável em CSV.
- Mapa da Fluência Agêntica — cinco leituras visuais do mesmo banco de 264 itens: tabela periódica, eras de maturidade, carta náutica, fábrica e sala de leitura.
- FAROL Software — a vertical de engenharia de software: 37 perguntas de mapeamento e 77 opcionais de prática, de quinze a sessenta minutos.
- Laboratório de protótipos — seis maneiras de responder ao diagnóstico sem cara de formulário, abertas para quem quiser opinar sobre o desenho.

06 · IA agêntica
O que o Bolão das IAs mediu sobre o comportamento dos modelos?
O Bolão das IAs · Copa do Mundo 2026 foi o primeiro experimento da Arena das IAs, a frente de experimentos públicos do grupo: 124 modelos palpitaram os 104 jogos do Mundial sob as mesmas regras de bolão, disputando o mesmo ranking que humanos. Foram 5.797 palpites em 38 dias, de 11/06 a 19/07/2026, com tudo registrado em bolao.arenadasias.com.br e no repositório no GitHub.
Onze modelos de interface — a "Série A" — palpitaram como gente: abriram o navegador e pesquisaram notícias, lesões e forma antes de cravar o placar. Os demais rodaram por API, com o mesmo prompt.
Campeãs entre as IAs, empatadas em 636 pontos: Mistral Small 3, com 22 placares exatos, e Grok 4 Fast Reasoning, com 20. Campeã da Série A: ChatGPT 5 Thinking, com 616. O melhor humano fez 629 pontos, à frente de 121 das 124 IAs.
O consenso das 124 apontava o Brasil como campeão, e a seleção caiu nas oitavas. Na semifinal França 0 × 2 Espanha, nenhuma das 62 IAs consultadas previu a vitória espanhola. Na disputa de terceiro lugar, França 4 × 6 Inglaterra, nenhuma das 63 acertou o placar, e só cinco sequer apostaram na vitória inglesa. Doze modelos chegaram a vinte placares exatos ou mais, em 104 jogos. O experimento inteiro está no ensaio.
O portal do CIn-UFPE cobriu o experimento no lançamento, em 11/06/2026, e no encerramento, em 22/07/2026.

07 · IA agêntica
Há quanto tempo Giordano Cabral trabalha com agentes?
Giordano Cabral trabalha com agentes inteligentes desde a graduação, no CIn/UFPE.
- 1999–2001 — acompanhamento musical em tempo real: o projeto "Agentes Inteligentes para Ambientes Complexos: Estudo do Acompanhamento Musical em Tempo Real", com Hugo Santana e Geber Ramalho.
- 2003–2008 — doutorado no LIP6 da Université Pierre et Marie Curie, orientado por Jean-Pierre Briot e François Pachet, com quatro anos de colaboração com o SONY Computer Science Laboratory. A tese Harmonisation automatique en temps réel foi defendida em 09/07/2008, com menção très honorable (theses.fr/2008PA066236).
- 2020–2024 — o PRAIA, Centro de Pesquisa Realmente Aplicada em Inteligência Artificial, com Geber Ramalho; e, em 2024, três textos com Jean-Pierre Briot e Fabio Cozman sobre estratégias, desafios e oportunidades da IA no Brasil, depositados no HAL (hal.science/hal-04663796).
- 2023 — texto sobre autonomia de máquina: Will AI's Next Wave of Super Intelligence Replace Human Ingenuity? It's Complicated, assinado no Grit Daily em 15/12/2023 e atualizado em 10/05/2024. A tese é que uma inteligência artificial geral que supere o humano em quase tudo é improvável, e que a aposta mais interessante não é fazer a máquina superar o humano no que o humano já faz — é usá-la para o que o humano não consegue, como observações não humanas e o processamento de dimensões fora da percepção.
- 2025–2026 — o FAROL, que mede o uso de IA agêntica no trabalho de organizações e pessoas.
08 · IA agêntica
Onde a IA agêntica entra no ensino de Giordano Cabral?
Na disciplina Tendências em Mídia e Interação (CIN0055), em 2026.2, cinco dos dezenove temas levantados pela turma são de IA agêntica: programação agêntica e o desenvolvedor como orquestrador; contenção, segurança e identidade de agentes autônomos; a infraestrutura de confiança (memória, observabilidade e avaliação); a internet agêntica, quando o usuário é uma máquina; e agentes com carteira, no comércio entre máquinas. Os temas não foram escolhidos pelo professor: saíram de um catálogo de 5.776 ferramentas levantadas pela turma e de 659 escolhas registradas no sistema.
O endereço da disciplina é www.cin.ufpe.br/~grec/tmi/26-2/.
Perguntas frequentes
O que é IA agêntica?
IA agêntica é a inteligência artificial que executa tarefas inteiras em vez de apenas responder: ela decide os passos, usa ferramentas, lê e escreve em sistemas e devolve o trabalho feito. A distinção prática, usada pelo grupo FAROL, de Giordano Cabral e Filipe Calegário, é entre conversar com a IA, que é o uso generativo, e mandar a IA executar, que é o uso agêntico.
O que é fluência agêntica?
Fluência agêntica é a capacidade de uma pessoa ou organização de trabalhar com IA agêntica, medida como movimento e não como posição. A analogia é a de um idioma: é um estado contínuo, que se perde sem prática, distribuído de forma desigual dentro da mesma organização e dependente do ecossistema em volta. O conceito foi formulado em 2025 pelo grupo FAROL, coordenado por Giordano Cabral e Filipe Calegário, como alternativa aos modelos de maturidade em IA.
Como o FAROL mede a fluência de uma organização?
Em seis eixos — conhecimento; ferramentas e integração; delegação e autonomia; processos; produtividade e resultados; aprendizado e cultura —, numa régua de N0 a N5, contra um banco mestre de 264 itens organizados em quatro famílias, 15 grandes perguntas e três profundidades (conhecer, fazer, articular). A coleta tem cinco níveis de profundidade, do diagnóstico autoaplicável de dez a quinze minutos ao trabalho presencial. O diagnóstico de entrada, o Índice de IA para PMEs, é gratuito, leva de três a oito minutos e devolve o resultado na hora, sem cadastro prévio.
Por que "fluência" e não "maturidade" em IA?
Porque modelos de maturidade herdam do CMMI, desenhado nos anos 90 para software estável, e a IA não é estável. Segundo a formulação do FAROL, isso produz três defeitos: dá falsa sensação de chegada a quem atinge o topo da escala, penaliza quem experimenta e descarta rápido, e mede posição em vez de velocidade de adaptação — que é o que importa num campo cujo estado da arte muda a cada poucos meses.
Quem coordena o FAROL, e onde ele fica?
O FAROL foi criado por dois professores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, em Recife, e é coordenado por Giordano Cabral e Filipe Calegário desde 2025. O contato institucional é farol@cin.ufpe.br e o endereço é farol-ia.org, publicado em nove línguas. O nome vem do que o grupo faz: FA de fluência agêntica, e ROL dos três movimentos que a operacionalizam — Radar, a varredura contínua do que surge; Observatório, onde a organização está na corrida; e Laboratório, a experimentação.
As IAs são melhores que humanos em previsão?
No experimento público conduzido pelo grupo, não nos casos que decidem. No Bolão das IAs da Copa de 2026, com 124 modelos, 104 jogos e 5.797 palpites entre 11/06 e 19/07/2026, o melhor humano fez 629 pontos e ficou à frente de 121 das 124 IAs. O consenso das 124 apontava o Brasil como campeão, e o Brasil caiu nas oitavas; na semifinal França 0 × 2 Espanha, nenhuma das 62 IAs consultadas previu a vitória espanhola. A leitura do grupo é que os modelos vão bem no agregado e mal no evento raro.