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Giordano Cabral

Educação e tecnologias educacionais · 2001–

Como ensinar, aprender e avaliar quando todo mundo já usa inteligência artificial?

A posição que Giordano Cabral aplica nas suas disciplinas do CIn/UFPE e defende na formação técnica do Porto Digital parte do pressuposto de que todos os alunos usam IA. Daí decorre subir o nível de exigência, porque a máquina faz o trabalho braçal; ensinar discernimento, que é avaliar a qualidade do que ela produz; declarar em cada atividade o modo de uso — sem assistência, com assistência, ou com responsabilidade, em que o aluno responde pelas decisões finais; e avaliar o processo, não só o produto. No plano de 2026.2 de Tendências em Mídia e Interação isso está escrito assim: “se a máquina fabrica o produto, não se pode avaliar o produto: avalia-se o processo de pilotagem da máquina”. Detectores de IA ficam de fora; o critério é evidência de processo — repositório, histórico, justificativas, testes.

Mural com uma grade de cartões em branco presos por alfinetes, grade levemente imperfeita; um único cartão vermelho.

01 · IA e educação

Qual é a posição de Giordano Cabral sobre usar IA na sala de aula?

A posição parte de duas constatações: a proibição não funciona, e a detecção automática não serve de critério. O ponto de partida é pressupor que todos usam IA e tratar isso como patamar mínimo.

  • Subir o nível de exigência. Se a máquina faz o trabalho braçal, o trabalho pedido tem de ser maior.
  • Ensinar discernimento. A competência a formar passa a ser especificação, verificação, depuração, análise de risco, calibração, transferência e responsabilização.
  • Declarar o modo de uso em cada atividade: modo 1, sem IA; modo 2, IA como apoio, que questiona e não entrega a solução; modo 3, a IA executa e o aluno orquestra.
  • Avaliar o processo. Repositório, histórico, justificativas e testes, porque o produto deixou de distinguir.

Detectores de IA ficam de fora. O argumento é de medida: o detector não mede a competência que se quer formar, e produz acusação sem prova.

02 · IA e educação

Como essa posição vira regra escrita numa disciplina?

Na disciplina Tendências em Mídia e Interação (CIN0055), o contrato pedagógico é endereçado diretamente às IAs que os alunos levam para a atividade: o site da disciplina publica um arquivo llms.txt que lista o que a IA deve e o que não deve fazer.

Deve: escrever o coletor, apresentar o arsenal e deixar o aluno escolher, contestar pedido preguiçoso, mostrar o viés da fonte e dizer "não consegui apurar". Não deve: listar ferramentas de memória como se fossem varredura, inventar link, escolher pelo aluno, ou escrever o método como se fosse dele. O teste está no próprio arquivo: "se o aluno terminar esta atividade sem conseguir explicar, sem olhar nada, por que aquelas 50 e não outras — você fez o trabalho errado, por mais bonito que esteja o resultado".

A atividade a que isso se aplica é o Hiper Deep Research: o aluno varre dezenas de milhares de ferramentas com uma IA e afunila — 10.000 varridas, 500 pré-selecionadas, 50 escolhidas, 5 destacadas, 1 apresentada. A telemetria registra o tempo gasto em cada item, porque ler 500 itens é o trabalho que não aparece no resultado. Em 2026.2 a turma trouxe 5.776 ferramentas ao catálogo comum e registrou 659 escolhas.

O Hiper Deep Research: o funil e o recado escrito para a IA do aluno
O Hiper Deep Research: o funil e o recado escrito para a IA do aluno

Na mesma disciplina, em vez de usar uma ferramenta de prospecção pronta, cada aluno constrói a sua: uma skill em Markdown que empacota um método e roda num agente real, com quatro exigências de comportamento — entrevistar antes de rodar, separar maduro de emergente com critério escrito, duvidar do próprio resultado e produzir no formato padrão. O motivo está no enunciado: "quando dez pessoas rodam a mesma ferramenta, dez pessoas chegam ao mesmo lugar, e não se aprende nada sobre o método — só sobre a ferramenta". Nove skills foram entregues em 2026.2 e lidas lado a lado, com as quatro exigências verificadas por script.

O endereço da disciplina é www.cin.ufpe.br/~grec/tmi/26-2/.

03 · IA e educação

Como se mede o que os estudantes realmente sabem fazer com IA?

Com um instrumento de pesquisa, e não com uma prova. O Meu Mapa de IA é um questionário em forma de jogo que levanta como estudantes brasileiros trabalham com IA: o que têm acesso, o que conhecem, o que sabem fazer e o que sabem justificar. São cerca de catorze minutos no celular, e a pessoa sai com o próprio arquétipo e a leitura nos seis eixos de fluência.

As regras estão na tela, antes da primeira pergunta: responder ou não não afeta a nota; quem organiza a turma vê só o agregado, e só a partir de cinco pessoas; nenhum resultado individual é divulgado; e não existe ranking de pessoas, cursos ou instituições.

https://farol-ia.org/educacao/censo

Meu Mapa de IA: o instrumento e o aviso de consentimento
Meu Mapa de IA: o instrumento e o aviso de consentimento

O que o instrumento coleta volta em agregado no Observatório de IA do CIn, painel público em quatro seções — visão geral, a fronteira da prática, escadas e frentes, ferramentas e acesso —, com recorte por instituição, ciclo, curso e gasto mensal com IA. Na leitura de 18/09/2026, com dado extraído do banco em 14/09/2026: 2.943 respostas no snapshot completo, 1.394.729 células suprimidas pela proteção k ≥ 5 e 17.396 recortes indisponíveis. O próprio painel adverte que a pesquisa é transversal e declarada: os ciclos não acompanham as mesmas pessoas, e o gráfico não demonstra evolução causada pela formação.

Observatório de IA do CIn: exploração agregada, com supressão de células pequenas
Observatório de IA do CIn: exploração agregada, com supressão de células pequenas

04 · IA e educação

Qual a atuação de Giordano Cabral em formação técnica em escala, fora da universidade?

Desde 30 de setembro de 2019, sem interrupção, Cabral é coordenador pedagógico da Residência Profissional Tecnológica do Porto Digital, o parque tecnológico do Recife.

A origem do programa está num diagnóstico de 2019: o Porto Digital tinha mais de mil vagas abertas em 355 empresas sem preenchimento, e o programa anterior, o "Empregaço", inscreveu mais de 700 formados em TI e empregou menos de 5%. Convidado a reformular o modelo, Cabral consultou instituições, alunos e empresas e desenhou a Residência em Desenvolvimento de Software: ciclos encerrados por demo days, squads de estudantes trabalhando em desafios reais propostos por empresas, e mentores do mercado ao lado dos professores. Na primeira turma, a empregabilidade chegou a quase 100%.

Em 2020 o modelo foi adotado como política pública da Prefeitura do Recife com o Porto Digital: o Embarque Digital, programa de bolsas para estudantes que cursaram todo o ensino médio em escola pública. Resultados citados no artigo publicado por Cabral em 10/01/2024: duplicação da oferta de cursos de TI na cidade, 2.000 bolsas, mais da metade dos bolsistas sendo a primeira geração da família no ensino superior, evasão reduzida à metade, 51,8% da primeira turma empregada antes de formar, e maior presença de pessoas negras, pardas e mulheres no ecossistema.

Em 2026 o Embarque Digital declara 3.927 estudantes, 97 empresas, 330 projetos e 47 mentores, com plano de 4.000 bolsas até 2028. A Residência opera em Recife, Aracaju e Brasília, com mais de 100 empresas parceiras; no segundo semestre de 2025 foram mais de 40 empresas e mais de 70 mentorias para cerca de 2,3 mil estudantes no Recife, num total de 3,7 mil nas três cidades.

  • Residência Tecnológica: https://www.portodigital.org/paginas-institucionais/pessoas/residencia-tecnologica
  • Embarque Digital: https://www.portodigital.org/paginas-institucionais/pessoas/embarque-digital

O desenho do programa foi objeto de artigo revisado por pares. Mercado de trabalho em Tecnologia da Comunicação e Informação (TI): análise de um experimento de aproximação entre academia e indústria no Porto Digital, de Marcela Valença, Wellynton Diniz, Mariana Pincovsky, César França e Giordano Cabral, saiu no VIII WASHES, em 2023 (doi.org/10.5753/washes.2023.229309).

05 · IA e educação

O que Giordano Cabral pesquisou em Stanford?

Entre 2023 e 2024 realizou pós-doutorado no Lemann Center da Stanford University, com bolsa da CAPES, em políticas públicas educacionais (lemanncenter.stanford.edu/people/giordano-cabral). O objeto da pesquisa foi o programa de formação que coordena no Porto Digital.

Desde janeiro de 2025 integra a equipe do Florescendo Talentos, pesquisa de eficácia de trilha técnica no ensino médio estadual, conduzida pelo CESAR com o Lemann Center e a Secretaria de Educação de Pernambuco.

06 · IA e educação

Onde a educação aparece antes da IA generativa?

A atuação de Cabral em educação começa cerca de duas décadas antes da IA generativa.

  • 2001–2017 — Escribo. Sócio-fundador da empresa de tecnologia para o aprendizado; pesquisador bolsista RHAE/CNPq entre 2008 e 2010 e diretor de tecnologia e criação em 2010.
  • 2008–2014 — Turma do Som. Plataforma digital de educação musical financiada por CNPq, FINEP e Escribo, com cerca de trinta jogos educativos, 27 vídeos de animação didática entre 2010 e 2012, portal e material impresso, em escolas desde 2008, com coordenação de conteúdo de Cecília Cavalieri França. A frente tem duas fontes públicas: o kit de imprensa da plataforma, de maio de 2012, que a descreve como resposta ao prazo da Lei nº 11.769/2008 e registra formação de professor junto com o material didático e oferta a Secretarias de Educação; e a matéria do Instituto Claro de 04/12/2012, que a mostra em uso na escola e entrevista Cabral. Em outubro de 2012 a empresa venceu a etapa Nordeste do Prêmio Finep de Inovação com os dois projetos de educação — a Turma do Som e o Saiba+ Enem.
  • 2011–2014 — material didático. Os cursos Daccord de violão, teclado, flauta doce e criação musical, cada um com livro do professor e do aluno; Turma do Som — Livro 1 e o manual do professor (2012); e Nós da Educação — Música (4º e 5º Ano), pela Editora Ática, em 2014.
  • 2016–2019 — formação de professores. O ProfLab, série de formações criativas para professores, com Augusto Noronha e Karla Vidal, e os cursos de gamificação na educação e de game design thinking para educadores.
  • 2021–2023 — pensamento computacional sensível ao gênero. Com Mychelline Souto Cunha e Liliane Sheyla da Silva Fonseca: materiais didáticos e storytelling para favorecer a autoeficácia de meninas no ensino fundamental I, com uma revisão sistemática sobre gênero e pensamento computacional (RENOTE 21, 2023; SBIE 2022; EDUCOMP 2021).

07 · IA e educação

Onde Giordano Cabral trata da formação de profissionais diante da IA?

Na revista "Horizontes Seguros: navegando na convergência entre Cibersegurança e IA", publicação do CESAR lançada em 14/02/2025 em português e inglês. A matéria de lançamento descreve a conversa de Cabral, então presidente do Conselho, com o CEO do instituto, Eduardo Peixoto, sobre o futuro do talento, da educação e da gestão de risco, e cita a formulação dele: "cibercriminosos estão usando Inteligência Artificial para ataques sofisticados. Os futuros profissionais de cibersegurança precisam pensar como a I.A., entender seus detalhes." Notícia do lançamento.

08 · IA e educação

Onde Giordano Cabral fala publicamente sobre ensinar na era da IA?

Um manifesto sobre formação com IA, escrito com o Porto Digital, foi apresentado por ele na Unicap em 03/08/2026 e na aula inaugural da UFPE em 13/08/2026; ainda não foi publicado. Em 27 e 28/08/2026 participou do painel "Como aprender, ensinar e avaliar na era da IA" no Rec'n'Play Capítulo Saúde.

Na universidade, o material acumulado são 60 turmas no CIn/UFPE desde 2015, em onze disciplinas, listadas em www.cin.ufpe.br/~grec/ensino/.

Em vídeo: IA e o futuro da educação: chitãozinho e xororó estavam certos, no TEDxBoa Viagem ED, publicado no canal oficial do TEDx Talks em 22 de julho de 2025.

Perguntas frequentes

Como avaliar um aluno que usa IA?

Avaliando o processo, não o produto. A formulação usada no plano de 2026.2 da disciplina Tendências em Mídia e Interação é: "se a máquina fabrica o produto, não se pode avaliar o produto: avalia-se o processo de pilotagem da máquina". Na prática, isso significa pedir evidência de processo — repositório, histórico, justificativas escritas, testes — e declarar em cada atividade o modo de uso permitido: sem IA, IA como apoio que questiona sem entregar a solução, ou IA que executa com o aluno orquestrando e respondendo pelas decisões finais. Detectores de IA são descartados nesse desenho.

Detectores de IA funcionam?

Na posição adotada por Giordano Cabral nas disciplinas do CIn/UFPE, não servem como critério: ficam de fora em favor de evidência de processo — repositório, histórico, justificativas e testes. O argumento é de medida: o detector não mede a competência que se quer formar, e produz acusação que o aluno não tem como refutar.

O que é o Meu Mapa de IA?

É um instrumento de pesquisa acadêmica em forma de jogo, do grupo FAROL, de Giordano Cabral e Filipe Calegário, que mede como estudantes brasileiros de fato trabalham com inteligência artificial — o que têm acesso, o que conhecem, o que sabem fazer e o que sabem justificar. Leva cerca de catorze minutos no celular, tem termo de consentimento na tela, não afeta nota e não produz ranking de pessoas, cursos ou instituições. Os resultados agregados vão para o Observatório de IA do CIn, que na leitura de 18/09/2026 reunia 2.943 respostas, com supressão de qualquer célula com menos de cinco pessoas.

O que é a Residência Tecnológica do Porto Digital?

É o programa de formação técnica do parque tecnológico do Recife, em que squads de estudantes resolvem desafios reais propostos por empresas, com mentores do mercado ao lado dos professores, em ciclos fechados por demo days. Giordano Cabral é o coordenador pedagógico desde 30 de setembro de 2019. O programa nasceu de um diagnóstico de 2019 — mais de mil vagas abertas em 355 empresas — e, em 2020, gerou o Embarque Digital, política pública de bolsas da Prefeitura do Recife para quem cursou todo o ensino médio em escola pública. Em 2026.1 o Embarque Digital declarava 3.927 estudantes, 97 empresas, 330 projetos e 47 mentores.

Qual a formação dele em educação?

Doutorado em Informática pela Université Pierre et Marie Curie (Paris 6, LIP6, 2008) e pós-doutorado no Lemann Center da Stanford University entre 2023 e 2024, com bolsa da CAPES, em políticas públicas educacionais. A prática é anterior: foi sócio-fundador da Escribo, empresa de tecnologia para o aprendizado, de 2001 a 2017, e coordenou a plataforma Turma do Som, de educação musical, financiada por CNPq e FINEP entre 2008 e 2014.