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Pergunte-se a professores de ensino superior de nosso país se estão satisfeitos com seus empregos, suas carreiras e seus rendimentos. Pergunte-se o que os mesmos podem ou devem fazer para melhorar, avançar, e ter seu trabalho reconhecido, seja em termos salariais ou hierárquicos. Pergunte-se sobre as avaliações a que se têm submetido e dos efeitos dessas no seu dia a dia. Pergunte-se ... Nessa altura, o entrevistado já formulou mais perguntas do que o entrevistador. Política salarial, avaliações, promoções, penalidades ou incentivos são palavras estranhas e não familiares para a maioria dos professores universitários brasileiros. Mesmo nas unidades particulares, onde tais mecanismos seriam de se supor mais ativos, pouco há para relatar.
Que é preciso mudar, poucos discordam, mas ... por onde e pelo que começar? Quais os interesses que mantêm o atual estado de coisas? A quem ajuda tal inanição? Quem ganha e quem perde com isso tudo?
Este texto pretende ser um fator motivador para uma discussão ampla, ousada e reveladora, tendo como tema as carreiras docente e de pesquisa no Brasil. Há muito o que falar, perguntar, esclarecer, explicar; enfim, há muito por fazer nesse aspecto, e um breve texto não seria capaz de abordar todas as questões.
Assim, foram escolhidos alguns aspectos que parecem ser de importância,
aos quais podem serão adicionados pontos complementares
para um estudo abrangente da questão. Cada assunto é
identificado e brevemente comentado, na forma de um menu de tópicos
de discussão. Naturalmente, nada aqui é conclusivo
nem pretende ser definitivo.
Política salarial
O plano de carreira docente prevê uma evolução
que vai desde o professor auxiliar até o titular, passando
pelos cargos de assistente e adjunto. Segundo estatísticas
do MEC, havia em 1993, nas IFES federais brasileiras, a seguinte
distribuição docente por categoria funcional:
| Titular | Adjunto | Assistente | Auxiliar | Visitante | Substituto | Total | |
| Docentes | 3123 | 22599 | 11838 | 6839 | 518 | 2273 | 47190 |
| % | 6,62% | 47,89% | 25,09% | 14,49% | 1,09% | 4,82% | 100% |
Há uma concentração evidente na faixa de adjunto, o que mostra o acúmulo exagerado num determinado estágio apenas. Além disso, a progressão funcional é lenta e baseada, quase que determinantemente, no tempo de serviço; é difícil queimar etapas, assim como é difícil não ser promovido.
A proporção de titulares por adjunto, ou mesmo titulares
por docentes em um departamento, varia enormemente de acordo com
a força política da região/IFES/departamento,
etc, podendo-se enumerar aqui vários fatores, exceto os
puramente acadêmicos ou meritocráticos. A universidade
brasileira parece ter, arraigado em si própria, o clientelismo.
Quais deveriam ser os fatores para estabelecer a relação
entre o número de docentes em cada categoria em diferentes
instituições?
Política salarial
Um professor titular numa grande universidade, onde a competição
é extremamente dura e desgastante, recebe o mesmo salário
que um professor titular de um obscuro departamento de uma obscura
universidade. O mesmo ocorre para as demais categorias funcionais,
independentemente do prestígio do professor, do cargo,
ou da instituição. A grande diferenciação
salarial ocorre em pontos meramente administrativos: a dedicação
exclusiva (50%) e a carga horária (20 ou 40 horas). Não
há diferenciação efetiva por merecimento
excetuando-se a titulação.
Qualificação docente
O professores não têm tempo, incentivo ou mesmo necessidade
de melhorar profissionalmente. A menos de uma minoria dos professores,
que individualmente buscam através de contatos com o mundo
externo melhorias de sua capacitação profissional,
a maioria restante não vê necessidade alguma de manter-se
atualizada. Alguns adjuntos, prevendo que jamais serão
titulares, atiram-se nas cordas, e deixam o barco correr. O que
poderia mudar?
40h e 40h DE
A síndrome das quarenta horas e da dedicação
exclusiva tornou-se carro-chefe na avaliação acadêmica.
Professor bom é professor integral. O critério
é inflexível, fazendo com que a universidade fique
privada de professores que em muito poderiam contribuir, mas que
não gostariam de ter um envolvimento em tempo integral
com o ensino. As razões desta desconfiança em relação
aos professores horistas, tempo parcial, ou convidados vem da
própria incapacidade da universidade de gerenciar seus
recursos: quando foi permitida a contratação de
professores colaboradores, o que se viu foi um grande festival
de empreguismo e aproveitamento de colegas, parentes e amigos,
novamente sem compromisso com a qualidade acadêmica. Também
devem ser analisados os efeitos da gratificação
DE: dedicação exclusiva. Há critérios
e critérios na sua interpretação e o objetivo
original, que era o de manter o professor 40 horas por semana
na universidade, e apenas nela, na maior parte dos casos ficou
descaracterizado.
| Titular | Adjunto | Assist | Auxiliar | Visitante | Substituto | Total | ||
| 20h | ||||||||
| 40h | ||||||||
| DE | ||||||||
| Total |
Fonte: Boletim de dados físicos e orçamentários
IFES/MEC 1994
Produto do trabalho
O que se espera que um professor universitário, no Brasil,
produza? Bons alunos, alunos bons, profissionais competentes,
professores, futuros mestrandos e doutorandos, agentes de mudança
para nosso país, empresários, empreendedores? É
preciso definir alguns desses produtos para podermos avaliar a
eficácia do trabalho sendo feito. Como saber se a academia
brasileira é eficiente sem parâmetros que nos mostrem
tal?
Jabá
Este é um termo jocoso que se usa para denominar o trabalho
por fora, feito para completar o orçamento. Alguns professores
eventualmente têm atividades externas à universidade,
seja apoiando o governo, instituições científicas,
ou simplesmente melhorando seu orçamento. Alguns não
são remunerados, mas a verdade é que ganhar dinheiro
é quase sempre mal visto pelos pares. O espírito
empreendedor, ou meramente comercial de muitos profissionais é
duramente criticado pelos que imaginam o magistério como
um ideal de abnegação e dedicação.
Órgãos de fomento
A ausência de carreiras mais rentáveis e confiáveis,
além da baixa remuneração para os professores
mais destacados, tornou as bolsas de pesquisa um verdadeiro salário,
por muitos já totalmente incorporado ao orçamento
doméstico, cuja retirada acarretaria problemas de ordem
social, além dos acadêmicos. Desse modo, o direcionamento
do professor quase que totalmente para os fatores que alimentam
a manutenção das bolsas de pesquisa virou mais um
problema: torna-se importante para o professor trabalhar naquilo
que pode lhe proporcionar boas avaliações no critério
de pontuação das bolsas, independente das condições
e necessidades regionais, departamentais e acadêmicas de
cada um especificamente. Como adaptar o professor ao seu ambiente
profissional e social, e ao mesmo permitir seu acesso aos critérios
de concessão de bolsas e benefícios extras tão
necessários para sua sobrevivência?
Concursos
Tem havido muitos concursos nas universidades federais e alguém
pode perguntar: têm sido justos? Os melhores profissionais
estão ingressando na universidade através dos mesmos?
É válido estreitar o campo de conhecimento numa
prova, fixando quase que a disciplina que o futuro professor vai
lecionar, em detrimento de uma formação mais ampla,
humanista e de vivência exigida para os docentes? O que
é mais importante num professor: a especialização,
a habilidade de comunicar-se com ao alunos, a capacidade de motivar
grupos, a criatividade? Esses fatores, se importantes, têm
sido levados em consideração nos concursos recentemente
organizados pelas IFES?
Fundações e arrecadação de fundos
A falta de recursos e baixos salários tem levado muitos
grupos de professores à aproximação e mesmo
criação de fundações universitárias,
com o intuito de arrecadar dinheiro com atividades externas e
distribuí-los por entre o quadro docente, eventualmente.
Esta é uma fórmula de sucesso, que vem sendo empregada
em algumas universidades há mais de duas décadas.
É preciso, entretanto, avaliar o balanço final
dessas atividades e impor regras delimitadoras para que, nem os
cursos regulares sejam prejudicados pela ganância excessiva
e nem os cursos sejam prejudicados pela inércia dos departamentos,
que por falta de motivação deixem de explorar essas
possibilidades.
Participação não docente
As universidades têm quadros técnicos de qualidade
mas, por definição, professor é que dá
aula. Será o caso de rever tais critérios e abrigar
técnicos de alta qualificação que desejem
seguir a carreira de pesquisa? Além disso, como agregar
aos departamentos docentes os técnicos que são necessários
para o prosseguimento das atividades de pesquisa. É serio
o problema da descontinuidade dos projetos de pesquisa quando
os alunos envolvidos concluem seus programas a partem para outras
atividades, deixando muitas vezes a descoberto anos de trabalho
que ficam sem continuidade porque os departamentos não
dispõem de quadros técnicos para manter as pesquisas
em andamento e dar manutenção aos equipamentos e
software envolvidos.
Modelo de ensino
O modelo de ensino que se emprega em computação
não tem mudado muito nas duas últimas décadas:
aulas expositivas, trabalhos, monitores, tudo no âmbito
universitário, de forma meio isolada, numa estreita relação
professor-turma. A própria tecnologia criada por nossa
comunidade, entretanto, pode mudar substancialmente tais características,
criando um novo mundo de ensino e pesquisa, onde atribuições
tradicionais podem ser substituídas por novas, completamente
diferentes e requerendo para sua execução uma organização
mais avançada, dinâmica e maleável no que
se refere ao quadro docente. Não seria a hora da SBC promover
cursos que servissem de modelo no ataque ao problema da carência
de professores e recursos?
Cooperação
É assunto de um painel específico neste SECOMU,
mas é preciso analisá-la sob a ótica de carreira.
O MEC é uma instituição nacional e um amplo
programa de cooperação teria benefícios sensíveis
se acoplado a um plano de carreira para incentivo e motivação.
Avaliação
Avaliação docente é um tabu para ser quebrado.
O que é importante? Professores devem ser avaliados?
Como comparar diferentes áreas de ensino, diferentes departamentos,
diferentes disciplinas? Como medir o valor de um docente? Como
avaliar cursos, alunos, ensino?
Valores
Quais são os valores que regem as decisões universitárias no Brasil? O que almejam os docentes e os dirigentes universitários quando decidem sobre seus futuros? Como é tratado o empreguismo, tão popular no Brasil, no nosso meio? E o turismo?
Certamente, um dos males maiores é o empatismo,
que é o desejo expresso da maioria de que todos terminem
empatados, de preferência em primeiro lugar, em qualquer
situação. Qualquer critério de avaliação
individual está pronto somente quando isso ameaça
acontecer. O empatismo é responsável por aberrações
como a gratificação DE, que discrimina pouco, mas
mantém todos empatados nos 50%.
Universidades particulares
Há muito mais cursos particulares do que públicos
na área de informática em nosso país. Na
avassaladora maioria deles, a qualificação docente
está muito aquém do mínimo razoável.
Embora a SBC tenha pouca influência sobre isso, como deveria
agir para buscar melhorias neste aspecto através dos mecanismos
de controle do MEC sobre os cursos privados? Como pode a SBC
contribuir para que cheguem a esses professores, normalmente baseados
no interior do país, meios e incentivos para o enriquecimento
de seus currículos?
Conclusões
São muitas perguntas, dúvidas e questionamentos
que, esperamos, juntamente com outros tópicos levantados
pela comunidade, possam ser discutidos e avaliados no próximo
SECOMU.