SECOMU 96: Algumas Considerações Sobre
Projetos Estratégicos Alternativos para a P&D em Computação
Maria Elenita M. Nascimento, PhD Ciência da Computação
e-mail elenita@cic.unb.br
Contribuição de Maria Elenita M. Nascimento para a discussão sobre Pesquisa e Projetos Estratégicos
Em pouco mais de vinte anos, com a superação
de técnicas de produção que separavam os trabalhos
de concepção e execução, ficou claro que "conhecimento
e informação" são mais vantajosos para o desenvolvimento
econômico do que o trabalho mal remunerado e desqualificado.
Neste contexto, o mundo hoje aposta na crença de
que todas as atividades serão "industrializadas"e que
todos os produtos passarão por processos de "engenharia"
desde a sua concepção até a embalagem na qual o produto
final é colocado no mercado. É exatamente este trabalho indireto
de "engenharia"que agrega mais valor a cadeia produtiva de qualquer
bem e concentra cada vez mais empregos novos e melhor remunerados.
O retorno do trabalho hoje, no Brasil, é vertiginosamente
decrescente devido ao processo existente da desvalorização
da força de trabalho brasileira. A vantagem comparativa mais estratégica
de uma economia contemporânea é a capacidade intelectual de
sua força de trabalho, isto é, sua inteligência social.
É esta vantagem que assegura o poder de uma inserção
valorizada na divisão internacional do trabalho.
Neste contexto, perguntamos o que cabe a Universidade
no processo de desenvolvimento brasileiro? De acordo com (Buarque, 1994),
seu primeiro trabalho deve ser o de medir, testar as hipóteses e
criticar os dados para que o debate democrático entre as opções
seja esclarecido e progrida dialeticamente. É investir na construção
e disseminação de um saber moderno cada vez mais quantificado,
ou seja, construir representações modernas que aprimorem
nossa comunicação modernizando significados mais aderentes
ao modo de vida brasileiro do que as representações do saber
que recebem propostas de fora..
Segundo (Marques, 1995) a Universidade deve ser institucionalmente
engajada no processo de instrumentalização do povo brasileiro
para o mundo moderno, ou em outras palavras, no processo de dotar a população
brasileira em geral dos atributos cognitivos - lingüisticas, educacionais
e profissionais - necessárias para que a nossa sociedade se veja
como conscientemente progressista.
Existe clara dissociação de interesses entre
a realidade do mercado de informática (tanto a nível de produção
quanto de consumo) e a comunidade acadêmica da área (apesar
dos programas de governo) e a integração desses dois setores.
Enquanto a indústria busca ter melhor experiência competindo
nos mercados internacionais, a comunidade acadêmica e de pesquisa
busca produzir publicações em revistas internacionais sem
articulação com um projeto a nível nacional de desenvolvimento
da industria de informática. Além disso é importante
considerar a melhoria da formação de recursos humanos que
atualmente pauta por um imenso abismo entre os alunos formados por universidades
públicas e os formados por instituições privadas.
A pesquisa brasileira em informática é movida
mais pelo diletantismo de causar uma boa impressão dentro dos círculos
acadêmicos mundiais do que trabalhar efetivamente em pospostas cientificas
e tecnológicas que possam trazer efetivamente a construção
de uma estrutura de produção na área de informática
competitiva a nível mundial.
Dentro do espírito de troca de idéias que
norteia a apresentação das propostas apresentadas ao SECOMU
96 gostaria de levantar esses pontos de forma a subsidiar as discussões.
Estas questões se dirigem diretamente a abrir o tema desse debate:
projetos estratégicos alternativos para a P&D em Computação
de forma a se pensar quais as ações que deveriam ser tomadas
para que países emergentes como o Brasil possa enfrentar essa situação
contraditória onde se combina desigualdade social com um processo
de inserção competitiva no mercado internacional na área
informática.