A UNIVERSIDADE, ABERTA
Silvio Lemos Meira,
Departamento de Informática
José Carlos Cavalcanti,
Departamento de Economia
Universidade Federal de Pernambuco, Recife
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Resumo
Este documento tem como objetivo principal colocar
em discussão a urgente necessidade, hoje, de uma verdadeira abertura
nas Universidades às idéias sobre o seu repensamento enquanto
instituição social. A defesa deste argumento está
pautada em dois aspectos centrais. Em primeiro lugar, a Universidade no
Brasil perdeu seu papel primordial que é o antecipar as mudanças
e, assim, preparar adequadamente novas gerações para o futuro.
Em segundo lugar, perdeu uma de suas principais funções que
é a capacidade de ousar. Deste modo, o texto está dividido
em duas seções. Na seção 1 é apresentado
um quadro geral que tenta qualificar o problema da Universidade hoje no
país. Na seção 2 é apontado um conjunto de
sugestões no sentido de contribuir para um reflexão sobre
como ela deva encarar o futuro, na perpectiva da autonomia que se avizinha.
A idéia-força que embasa estas sugestões é
a de que, num contexto da transição para o próximo
século, que se caracteriza pela sociedade do conhecimento e pela
forte competição para a apropriação econômica
do saber, a Universidade, ao contrário de outras épocas,
tem que ser vista como a ponta-de-lança do desenvolvimento econômico,
social, político e cutural.
1- O Problema da Universidade Pública no
Brasil
O Governo Federal está preparando as 39 (trinta
e nove) universidades federais e mais 15 (quinze) faculdades federais isoladas
do país para adotar o princípio da autonomia administrativa
e financeira, seguindo o modelo que já impera nas universidades
paulistas desde 1989. A idéia é que o conjunto das universidades
divida entre si um bolo de dinheiro fixado de acordo com algum critério
estável, e a partir daí, cada uma administre por si seus
recursos humanos, custeio e investimentos (Gazeta Mercantil, 12/07/96,
pg. A-8).
Esta Autonomia Universitária vai certamente
alterar as relações entre as Universidades e o Governo. Este
conjunto universitário federal conta hoje com 71 mil funcionários
e 45 mil professores. Todos são funcionários públicos
federais e a política de recursos humanos das universidades está
comprometida por toda uma teia de controles, rigidez, estabilidade e arrocho
salarial que incide sobre o funcionalismo em geral. Liberar as universidades
das amarras do Regime Jurídico Único do funcionalismo vai
demandar uma batalha legislativa, e exigirá mudanças constitucionais
e da lei de diretrizes orçamentárias.
Este universo de 116 mil pessoas está inserido
no contexto particular de crise da universidade brasileira hoje, e do sistema
educacional como um todo. As universidades brasileiras atendem a uma minúscula
camada da população -1,6 milhão de alunos, somando
as públicas e privadas. Mantido o status quo, estima-se que
menos de cinco entre cada 100 crianças na faixa de 7 anos de idade
que iniciaram a 1 série do ciclo básico em 1996 terão
a oportunidade de frequentar um campus no ano 2008 (Revista Exame, 17/07/96,
pg. 42).
Por outro lado, numa inversão perversa, as
universidades absorvem quase dois terços de todo o dinheiro investido
pelo governo federal em educação. Em 1996, as universidade
brasileiras consumirão 4,9 bilhões dos 8 bilhões de
dólares do orçamento do MEC. Ao ensino básico, confiado
à guarda dos municípios e estados, caberá cerca de
1,9 bilhão de dólares de recursos federais (Revista Exame,
17/07/96, pg. 42).
À medida em que se consolida a visão
de que "a sociedade não quer dar mais recursos para a Universidade",
esta última, congelada na Era das Estatais, onde a formação
de pessoal e a pesquisa e desenvolvimento eram feitos para um modelo de
Nação que simplesmente evaporou, não se dá
conta de que, no seu dia-a-dia, dirige negócios.
A Universidade, teoricamente responsável,
no sentido amplo, por pensar e educar a Sociedade, deveria se ver como
um dos serviços fundamentais, que gera sistematiza e transfere conhecimento,
capacitando os indivíduos e instituições para uma
vida qualitativa e profícua para o país como um todo. No
entanto, pouco tem feito para alterar a opinião da vasta maioria
da sociedade, de ser um exemplo acabado de incompetência em quase
tudo que faz, com raras e honrosas exceções.
O mundo mudou muito e inequivocamente nos últimos
anos, fruto de uma conjunção de fatores políticos,
econômicos e tecnológicos jamais vistos com tal intensidade.
Parados ficaram o Brasil, seu Governo, seus Sindicatos, seus funcionários
públicos, órfãos de um estatismo nacional desenvolvimentista,
clinicamente morto desde a queda do Muro de Berlim.
Aqui se tenta manter vivo o Estadossauro, fazendo-lhe
enxertos legais, transfusões financeiras, amputando membros desordenadamente,
ao tempo em que se implanta outros, num curso tal que, se fôra crível,
pareceria planejado. "Muda-se para ser o mesmo; muda-se para os mesmos
e sempre poucos".
Apesar de algumas conquistas, como a estabilidade
monetária, o Governo Federal dá sinais de indecisões
que levam à potencial perda de credibilidade e autoridade para efetuar
as mudanças de que o país precisa. Imersa em um estado de
estabilidade e imobilismo, perdendo seu precioso tempo em reuniões
pouco úteis de conselhos idem, a Universidade está deixando
passar a oportunidade de fazer o que seria, de fato, seu papel: o de antecipar
as mudanças, e, assim , preparar adequadamente novas gerações
para o futuro.
Enquanto a Sociedade se reorganiza celeremente, a
Universidade, timidamente, com parcerias vagas, reage aqui e ali com um
novo prédio ou outro, leva a cabo planos de anos atrás para
a formação e contratação de pessoal. E o que
é mais grave, não ousa nada, perdendo deste modo sua função.
A ausência de ousadia é justificada.
As carreiras são desinteressantes. Se a de professor é um
desastre, com um doutor competente chegando ao fim de carreira, na prática,
em seis anos, a de técnico é risível e a de pesquisador,
inexistente. Paliativos como bolsas de pesquisa são cada vez menos
acessíveis à maioria, pois vindos da década passada,
já que criados para incentivar a militância em dedicação
exclusiva em centros de pesquisa em um país de poucos pesquisadores,
continuam tentando servir a este propósito quando, em certas áreas,
o número de doutores foi multiplicado por dez em quinze anos, sem
modificação tão significativa das bolsas.
Apesar de tudo, a Universidade é feita de
gente. Competente, por sinal, mas também comprometida com, e determinada
a, realizar um trabalho onde qualidade e relevância são propriedades
essenciais. Sem isso, prédios, bibliotecas e até mesmo laboratórios
são irrelevantes.
Infelizmente, em todo este contexto de dificuldades,
o que mais vale não é a gente-que-faz, e sim, a que não-deixa-fazer.
Pululam níveis administrativos e administradores sem função,
muitos deles guarda-livros do tempo d'EL Rei, cumprindo cegamente leis
e procedimentos tão velhos quanto, e, como se não bastasse,
sobram carreiristas e especialistas em extrair do serviço público
única e exclusivamente vantagens pessoais, bem ao contrário
do que, semanticamente, deveria fazer um servidor de verdade. Isso sem
mencionar o grande número daqueles que são, pura e simplesmente,
ineptos.
Uma única constatação emerge.
A Universidade tem que reagir, urgentemente, sob pena de, além de
perder sua alma de uma vez por todas, ser pega de surpresa por um tiro
mortal desferido pela Sociedade, a exigir dela respostas aos seus problemas,
por um preço justo.
2- Uma Agenda para o Futuro da Universidade Pública
no Brasil
Um tema que vem sendo extensamente debatido em vários
fóruns do globo é o da redefinição do papel
do Governo na Economia. De um ponto de vista específico da educação,
o quê assegura que o Governo tem que prestar o serviço de
ensino superior e pesquisa? A justificativa econômica clássica
para a intervenção do Governo é a de correção
das falhas do mercado. Mais recentemente, tem-se admitido que o Governo
também falha em sua intervenção (os países
da ex-cortina de ferro são a evidência mais concreta).
Em quase todos os países desenvolvidos se
percebe claramente que a formação de recursos humanos, a
pesquisa e desenvolvimento são consideradas áreas essenciais
e estratégicas. No entanto, em muito poucos tais atividades são
prestadas unicamente pelo Governo. O Brasil, que tem mantido uma taxa média
anual de investimentos em pesquisa e desenvolvimento nos últimos
quinze anos da ordem de 0,7% do seu PIB (a participação do
setor privado nesse dispêndio foi de apenas 0,6% ), e que tem o Governo
como o maior formador de recursos humanos do terceiro grau, pode correr
sérios riscos futuros se não alterar a sua estrutura de financiamento
e gestão nestas áreas.
Para vencer os seus vícios, torna-se necessário
o desatrelamento da execução da formação de
recursos humanos, a pesquisa e desenvolvimento da instância governamental.
Desta maneira, é possível evitar que a Universidade naufrague
junto com a máquina administrativa do Estado.
A postura mais realista hoje é a de abandonar
velhos preconceitos e fazer muitas perguntas duras, para as quais não
há respostas fáceis. É fundamental repensar radicalmente
a Universidade, não como um conjunto de Centros ou Institutos (a
maioria dos quais meros depósitos de carimbos) formados por Departamentos
(que servem apenas à sua peculiar religião, seja ela qual
for), causando centenas de reuniões e discussões pouco úteis
e vazias por mês, exaurindo o precioso tempo da admiistração
universitária em pouco efetivas discussões sobre, às
vezes, poucos metros quadrados ou uma ou outra vaga de professor aqui e
ali, ou ainda o pagamento, seja do telefone ou do conserto dos banheiros
deste ou daquele departamento. Isso quando muito.
Neste modelo arcaico e pouco eficiente, não
sobra tempo para pensar a Instituição, não há
planejamento ou estratégia que resista, não há método
que funcione, senão o contacto corpo-a-corpo entre administrador
e muitos níveis administrados, onde todos e cada um depositam -às
vezes unicamente- no topo da hierarquia suas (mais infundadas) esperanças.
A mesquinhez da política acadêmica advém
do tão-pouco valor do que realmente está em discussão,
normalmente uma batalha de egos, cada qual lutando por uma religião
em que se é DEUS.
A urgência é para que se mude, através
de um CHOQUE DE REALIDADE, RELEVÂNCIA E QUALIDADE, a Instituição,
ou se sairá em breve do limbo para o Nada. Nem a condenação
será levantada, pelo simples fato dela poder ser considerada irrelevante.
A sugestão aqui colocada é simples:
por quê não se abre, livremente, a Universidade às
idéias? O quê custa pensar, se é o que, pela Constituição,
deveriam fazer aqueles que a compõem? Muito, sabe-se. Mas muito
mais custará o imobilismo. Não se trata hoje, de uma discussão
sobre a autonomia universitária entre os bons (aqueles defendendo
uma Universidade "rica" e "pura") e o Governo.
Deve-se discutir, ampla e abertamente, a Universidade,
seu papel na Sociedade, seus custos, seu valor, seu preço. Sem medo,
sem temer as consequências, sem achar seu próprio rabo-de-palha.
Deve-se discutir modelos de gestão, participação
dos empregados, lucro (por que não?), oportunidades, patentes, geração
de empresas a partir dos campi, carreira, administração profissional,
fim dos mandatos de chefe, diretor e reitor (e por quê não?)
com a contratação de (professores?) executivos para gerir
os negócios do ensino, ciência e tecnologia, a reengenharia
dos métodos e processos do ensino e administração
universitária, o ensino continuado e aberto, as relações
entre a Universidade e o Governo, entre ela e a Sociedade em geral, o fim
dos diplomas e das reservas de mercado profissionais. Enfim, está-se
estabelecendo o convite a pensar: afinal, "somos ou não somos
pensadores?".
Estas questões não estão surgindo
do acaso, nem tampouco representam puramente o inconformismo, de uma corrente
de pensamento acadêmica, com o estado de crise por que passa a Universidade
brasileira. Muito além disso, elas emergem num contexto de transformações
profundas na economia mundial, onde é largamente reconhecido que
o diferencial da fronteira do desenvolvimento é marcado pela qualidade
do capital humano empregado na produção econômica.
Em resumo, a idéia-força que embasa
as sugestões aqui colocadas é a de que, num contexto da transição
para o próximo século, que se caracteriza pela sociedade
do conhecimento e pela forte competição para a apropriação
econômica do saber, a Universidade, aberta, ao contrário de
outras épocas, tem que ser vista como a ponta-de-lança do
desenvolvimento econômico, social, político e cutural.
Referências relacionadas a este artigo [do noticiário, do Universo On-Line...]